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sexta-feira, 10 de abril de 2009

1084 ENTEÓGENOS

Aspectos culturais e simbólicos do uso dos enteógenos

Rafael G dos Santos

UniCEUB

O uso intencional de substâncias psicoativas com o objetivo de se criar estados

alterados de consciência é uma prática que existe há milhares de anos. Vários grupos animais (desde os mais primitivos) usam substâncias psicoativas com a intenção de ficarem “intoxicados”. Ex: Manduca quinquemaculata (mariposas) que se “alimentam” das flores de Datura meteloides (planta rica em potentes alcalóides com propriedades psicoativas como a atropina) (Samorini, 2002), javalis e primatas que cavam a terra em busca das raízes do poderoso arbusto eboka (Tabernanthe iboga), planta utilizada nas cerimônias das religiões Bwiti, presentes no Congo e no Gabão (África) (Samorini, 2002; Labate, 2003), etc.

1083 ENTEÓGENOS

Diferentes povos nos mais variados ecossistemas do planeta praticaram e praticam técnicas as mais diversas para atingirem estas alterações de consciência: jejuns, privações sensoriais, tambores, danças e, não menos importante, drogas. Samorini (2002), baseado em entrevistas e trabalho de campo em diversas partes do mundo, afirma que a “descoberta” dos efeitos de algumas plantas (Cannabis sp., Tabernanthe iboga, café, etc) foi realizada através da observação do comportamento de alguns animais sob efeito destes vegetais.

1082 ENTEÓGENOS

O uso de enteógenos por seres humanos existe há, pelo menos, 50 mil anos (Labate, 2003). Em praticamente todos os cantos da Terra existe ou existiu alguma cultura que usa ou usou estes seres vivos com características especiais para as mais diversas finalidades. Dentre alguns destes podemos citar:

1081 ENTEÓGENOS

(a) Soma (Amanita muscaria), cogumelo paleo-siberiano utilizado por caçadores-coletores das tribos Tungue e Koriak na Eurásia (Schultes & Hofmann 1992; Furst, 1994; Spinella, 2001);

(b) Peiote (Lophophora sp.), cacto cultuado pelos Astecas e atualmente pelos índios huicholes do México (Schultes & Hofmann, 1992; Furst, 1994), possuí mais de 55 alcalóides diferentes (Spinella, 2001);

(c) Teonanacatl (Psilocybe sp.), cogumelos utilizados ritualmente pelos Maias, Mazatecas e outros grupos indpigenas na região de Oaxaca, México (Schultes & Hofmann 1992; Furst, 1994; Arthur, 2000);

(d) Ololiuqui (Rivea corymbosa, Ipomoea violacea), a trepadeira mágica dos Astecas e Mazatecas, ainda hoje seus descendentes a utilizam com finalidades

divinatórias, terapêuticas e mágicas (Schultes & Hofmann 1992; Furst, 1994);

(e) Bangue (Cannabis sativa, C. indica, C. ruderalis), planta que se encontra cultivada em praticamente todo o planeta, seu uso como medicamento, sacramento ou para fins recreativos permeia a história de povos na Índia (os sadhus, ou homens santos), na África (principalmente Etiópia e Serra Leoa), Ásia (usada para fins meditativos no Budismo Tântrico, por exemplo), Américas (tribos indígenas como os Cuna no Panamá, os Cora, Tepehua, e os Tepecanos no México a chamam de Santa Rosa, Rosa Maria, etc, e algumas tribos brasileiras também a utilizam, por exemplo, para fazer roçado, como os Tenetehara do Maranhão) (Henman, 1986; Schultes & Hofmann 1992; MacRae, 1992, 1998; Furst, 1994; Robinson, 1999;); embora o principal psicoativo presente na Cannabis sp. seja o já amplamente conhecido Δ9 -tetrahidrocanabinol, em um recente simpósio (I Simpósio Cannabis sativa L e Substâncias Canabinóides em Medicina, São Paulo, 15 e 16 de abril de 2004 – CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, Dep. De Psicobiologia da UNIFESP/EPM e SENAD Secretaria Nacional Antidrogas) foram relatadas mais de 66 substâncias diferentes presentes na maconha;

(f) Paricá, epená, cohoba, yopo, vilca, cébil (Anadenanthera peregrina, A. colubrina, Virola sp.), utilizada por grupos indígenas, por exemplo, na fronteira entre Brasil e Venezuela - os Yanomami - como um pó para inalação (rapé) (Schultes & Hofmann 1992; Furst, 1994; Ott, 1994);

(g) Jurema (Mimosa hostilis), uma leguminosa que foi utilizada para caçar e guerrear entre os índios do nordeste brasileiros e atualmente é usada, entre outras finalidades, para fins mágicos entre raizeiros e indígenas (Schultes & Hofmann, 1992; Mota & Albuquerque, 2002);

(h) Ayahuasca (Banisteriopsis sp. e combinações), seu uso foi relatado entre, pelo menos, 72 grupos indígenas diferentes que habitam, na maioria dos casos, a Amazônia Ocidental (Luna, 1986);

(i) Etc.

1080 ENTEÓGENOS

Neste pequeno trabalho pretendo realizar uma abordagem cultural e simbólica da importância que estes seres divinos possuem nos diversos contextos em que são utilizados. De uma maneira geral podemos afirmar que estas substâncias estão envolvidas em aspectos mágico-religiosos, embora existam exceções. Não pretendo realizar um estudo minucioso de cada um destes vegetais, mas tentar abordar de uma maneira genérica o importante papel que estes possuem na cosmologia, ordem social, ritos de passagem, rituais de cura e no processo do morrer nas culturas em que são consumidos.

1079 ENTEÓGENOS

Historicamente, estas plantas, consideradas plantas-espíritos ou plantas professoras, vêm sendo usadas para diversos fins (finalidades e, respectivamente, citações bibliográficas, não exaustivas):

1078 ENTEÓGENOS

(a) Reforço da identidade ética (Mota & Barros, 2002; Labate, 2003, 2004b);

(b) Coesão social (Dobkin de Rios, 1972, 1976; Labate, 2003; Keifenheim, 2004);

(c) Transmissão de valores culturais (Labate, 2003; Di Stasi 2003; Rodrigues & Carlini, 2003; Keifenheim, 2004);

(d) Produção artística (Lagrou, 1996; Labate 2003, 2004b);

(e) Morte simbólica do ego (Couto, 1986; Peláez, 1994; Lumby, 1998; Groisman, 1999; Leary, 2002; Luz, 2004; Keifenheim, 2004; Mabit, 2004; Zuluaga, 2004);

(f) Autoconhecimento (Leary, 2002; Labate, 2003, 2004b);

(g) Resolução de conflitos sociais (Schvartsman, 1992; Labate, 2003);

(h) Guerra (Reesink, 2002; Labate, 2003; Andrade, 2004);

(i) Feitiçaria (Dobkin de Rios, 1972, 1976; Harner, 1976a, 1976b, 1976c; Kensinger, 1976; Taylor, 1994; Mota, 1996; Albuquerque, 2002; Camargo, 2002; Grunewald, 2002; Mota & Barros, 2002; Pinto, 2002; Reesik, 2002; Andrade, 2004; Luz, 2004; Keifenheim, 2004; Mabit, 2004; Zuluaga, 2004);

(j) Caça (Labate, 2003);

(k) Obtenção de poder político e cósmico (Schvartsman, 1992; Labate, 2003);

(l) Metamorfosear-se em animais (Labate, 2003; Luna, 2004);

1077 ENTEÓGENOS

(m) Divinação (Dobkin de Rios, 1972, 1976; Kensinger, 1976; Siskind, 1976; Weiss, 1976; Taylor, 1994; Achterberg, 1996; Labate, 2003; Luz, 2004; Keifenheim, 2004; Mabit, 2004; Zuluaga, 2004);

(n) Comunicação com as divindades e aconselhamento pelos espíritos (Dobkin de Rios, 1972, 1976; Harner, 1976a, 1976b; Munn, 1976; MacRae, 1992, 2000; Albuquerque, 2002; Camargo, 2002; Araújo, 2004; Luz, 2004; Keifenheim, 2004; Mabit, 2004; Zuluaga, 2004);

(o) Atingir estados de transe (Dobkin de Rios, 1972; Couto, 1989; MacRae, 1992, 2000; Schultes & Hofmann, 1992; Albuquerque, 2002; Camargo, 2002; Eliade, 2002; Labate, 2004b);

(p) Treinamento do xamã (Dobkin de Rios, 1972; Kensinger, 1976; Munn, 1976; Weiss, 1976; Mota, 1996; Langdon, 2004; Luz, 2004; Keifenheim, 2004; Mabit, 2004; Zuluaga, 2004);

(q) Indução de sonhos para prever o futuro (Dobkin de Rios, 1972);

(r) Profecias (Dobkin de Rios, 1972; Schultes & Hofmann, 1992);

(s) Telepatia; clarividência (Dobkin de Rios, 1972; Munn, 1976; Naranjo, 1976; Schultes, 1992; Langdon, 2004; Luz, 2004; Keifenheim, 2004; Mabit, 2004; Zuluaga, 2004);

(t) Descobrir o paradeiro de pessoas desaparecidas (Dobkin de Rios, 1972);

(u) Induzir intoxicação para prever o futuro através de comunicação com o diabo (Dobkin de Rios, 1972);

(v) Causar doença em outra pessoa (Dobkin de Rios, 1972, 1976; Harner, 1976a, 1976b; Luna, 1986, 2004; Schultes, 1992; Taylor, 1994; Achterberg, 1996; Luz, 2004; Keifenheim, 2004; Mabit, 2004; Zuluaga, 2004);

(w) Obter visões diagnósticas para a prescrição de remédios (Dobkin de Rios, 1972, 1976);

(x) Identificar o inimigo causador do mal ou o agente causador do mal (Dobkin de Rios, 1972; 1976);

(y) Analgésico, anti-espasmódico, anti-diurético, anti-reumático, contra picadas de cobra, anti-febre-amarela (Dobkin de Rios, 1972);

(z) Atingir estados de intoxicação, êxtase e periódicos estados prazerosos (Dobkin de Rios, 1972).

1076 ENTEÓGENOS

Observando a vasta, mas não exaustiva lista de possibilidades de usos destes agentes, verificamos que o uso de drogas em nossa sociedade (de uma maneira 7 patológica) é a exceção, e não a regra. Pesquisadores respeitados como Abert Hofmann (descobridor do LSD-25) e Giorgio Samorini referem-se a esta atual situação do uso de drogas em nossa cultura como uma desacralização/profanação (Hofmann) ou desculturação (Samorini, 2002). O que estes autores (e tantos outros) afirmam é que o uso destes professores vegetais sempre esteve cercado de ética, moral e regras deconduta ratificadas pelos valores culturais. O antropólogo Edward MacRae (1992) disserta sobre como sanções socioculturais empregadas por grupos que fazem um uso ritualizado de psicoativos são mais eficazes que as leis proibicionistas de grande parte das nações quando comparamos os efeitos sociais do controle e forma de uso destes diferentes pontos de vista. Alberto Groisman (2000), em sua tese de doutorado sobre as igrejas do Santo Daime na Holanda, afirma que, na maioria das vezes, os aspectos socioculturais são mais importantes (e, inclusive, moldam/controlam) nas experiências com psicoativos do que os aspectos psicofarmacológicos. Com estes argumentos – que não são exaustivos – podemos observar e, pelo menos, reavaliar nossa postura perante o atual modelo de relação que temos com os psicoativos em geral e, especialmente, com os enteógenos. Esta atual “guerra contra as drogas” mostra-se, cada vez mais, uma guerra etnocida, como já havia dito o antropólogo Anthony Henman em 1986.

1075 ENTEÓGENOS

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segunda-feira, 23 de março de 2009

1011 10 PIORES DROGAS

Um estudo liderado pelo professor David Nutt, da Universidade de Bristol, no sudeste da Inglaterra, analisou 20 drogas ilícitas e lícitas e as classificou numa escala do nível de dependência, efeitos no organismo e interação social. Confira as dez piores drogas:

fonte: yahoo.com.br

1010 10 PIORES DROGAS

1º. Heroína:

A heroína, ou diacetilmorfina, é uma droga opióide natural ou sintética, produzida e derivada do ópio, que é extraído da cápsula (fruto) de algumas espécies de papoula. Foi usada enquanto fármaco de 1898 até 1910, ironicamente (uma vez que é muito mais aditiva), no tratamento de dependentes de ópio e também como antitússico para crianças. A heroína foi proibida nos países ocidentais no início do século XX devido aos comportamentos violentos que estimulava nos seus consumidores. Em forma líquida, ela é usada com uma seringa, que injeta a droga direto nas veias, mas também pode ser inalada.

1009 10 PIORES DROGAS

2º. Cocaína:

É classificada uma droga alcalóide, derivada do arbusto Erythroxylum coca Lamarck, estimulante com alto poder de causar dependência. Seu uso continuado, pode levar a dependência, hipertensão arterial e distúrbios psiquiátricos. Em forma de pó, a droga pode ser consumida de várias formas, mas o modo mais comum é pela aspiração. Em 1863, o químico Angelo Mariani desenvolveu o vinho Mariani, uma infusão alcoólica de folhas de coca, que chegou a ser muito apreciado pelo Papa Leão XIII, que inclusive premiou Mariani com uma medalha. A Coca-Cola seria inventada em parte como tentativa de competição dos comerciantes americanos com o vinho Mariani importado da Itália. Segundo rumores, o refrigerante continuaria desde a sua invenção até 1903 a incluir cocaína nos seus ingredientes, e os seus efeitos foram sem dúvida determinantes do poder atrativo inicial da bebida. Em 1885 a companhia americana Park Davis vendia livremente cocaína em cigarros, pó ou liquido injetável sob o lema de "substituir a comida; tornar os covardes corajosos, os silenciosos eloqüentes e os sofredores insensíveis à dor". Apesar do entusiasmo, os efeitos negativos da cocaína acabaram por ser descobertos.