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sábado, 12 de julho de 2008

685 ENTREVISTA COM CLARICE NOVAES

Clarice ingressou na ex-Universidade do Brasil em 1963, curso de Ciências Sociais da Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro. Participou do Programa Nacional de Alfabetização do Ministério da Educação, tendo sido treinada pelo Prof. Paulo Freire. Viveu no México em 1964.

Nos Estados Unidos em 1965, ingressou na Temple University, formando-se em Psicologia em 1969. Fez Mestrado em Antropologia Social na New School for Social Research, obtendo o grau de Mestre em 1977. Foi professora de antropologia no Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de 1979 a 2000. Obteve o grau de doutor em Antropologia Social pela University of Texas at Austin, em 1987, com bolsa de doutorado pelo CNPq. Publicou os livros: Jurema´s Children in the Forest of Spirits: ritual and healing among two Brazilian indigenous groups (Londres: Intermediate Technologies Publications, 1997) e As muitas faces da Jurema: de espécie botânica à divindade afro-indígena, com Ulysses Paulino de Albuquerque (Recife: Bagaço,2002). Tem vários artigos publicados em livros e periódicos. É também ex-presidente da Associação Nação de Jurema.

clarice@infonet.com.br

684 ENTREVISTA COM CLARICE NOVAES

Léo: Você poderia dar um breve relato da sua busca espiritual até chegar na Jurema ?

Clarice: Tudo começou com Michael Harner e a Transamazônica! Eu era estudante de antropologia na New School For Social Research, em Nova York, e o Michael era meu professor. Eu estava fora do Brasil há quase 11 anos e me preocupavam as noticias sobre os desmatamentos da Amazônia e a conseqüência para com os indígenas da região. Harner começava a falar sobre xamanismo, mas ainda ligado a sua formação antropológica, e ele me incentivava a procurar plantas psicoativas quando fosse fazer a minha pesquisa.

A princípio eu ia para a Amazônia, cheguei a contatar a FUNAI sobre ir aos Maku, no Alto Rio Negro, mas meu pai, que era sergipano, me instava a que trabalhasse com indígenas nordestinos. Ora, isso era o fim dos anos setenta, e praticamente ninguém no Brasil pensava em trabalhar com indígenas nordestinos porque nem se acreditava que existissem, ou não eram considerados como indígenas. Acabei assentindo e fui parar entre os Kariri Xocó. Harner ficou insistindo que eu procurasse saber qual era a planta mágica que eles usavam, pois assegurava que praticamente todas as nações indígenas usam princípios xamânicos e a ligação com uma realidade extraordinária através de uma ou várias plantas. Então, veja bem, eu fui fazer o trabalho não exatamente numa busca espiritual, mas como pesquisadora. Terminou, e claro, me afetando em termos de meus valores e crenças.

683 ENTREVISTA COM CLARICE NOVAES

Léo: Como foi seu primeiro contato com Mamãe Jurema ?

Clarice: Em 1984, eu estava pesquisando sobre a Jurema, ou seja, sobre o uso de plantas medicinais em geral, junto aos Kariri-Xocó, e o pajé Francisco Suíra, falecido em 1990, me contava sobre a magia da Jurema entre eles, explicando sobre o segredo indígena em torno do uso da Jurema, já que ela era a planta mágica que os ajudava a encarar sua vida como índios contemporâneos e a seguir adiante com dignidade e poder. Pedi-lhe que me deixasse tomar a jurema e ele, a princípio, disse que não, que eu não estava preparada, que era uma força maior do que a que eu poderia tolerar. Não insisti, mas um dia ele me chamou a noite, na casa de um companheiro seu, que morava na cidade de Colégio, não na aldeia.

Quando entrei, senti um cheiro pungente no ar, misturado a cheiro de mato queimado, de fumaça, etc. Ele me disse que estavam preparando a jurema para eu tomar, assim, a queima-roupa. Falou que era uma poção "Especial" porque eu já estava aprendendo bastante. Felizmente eu não tinha jantado, pois ele me disse que era melhor tomar com estomago vazio. Não fizeram nada diferente, não cantaram, nem armaram nada, mas o pote estava na cozinha, ele disse que há dois dias estavam cozinhando aquela jurema pra mim.

Perguntei como tinha sido preparada, e como sempre, ele foi misterioso, dizendo muito laconicamente que as cascas da raiz tinham sido cozinhadas por três dias, não tinha mistura nenhuma. Eram só as cascas. Eu já tinha lido que sem misturar com outra coisa, a DMT não faria efeito, então relaxei. Por outro lado, eu tinha muita confiança em seu Francisquinho, o pajé, e sabia que ele não me poria em nenhuma situação de perigo. Ficamos em silencio durante algum tempo, e eu comecei a sentir um torpor agradável, de quem pode esperar a vida inteira por algo muito bom, muito profundo, sem mágoa, sem aflição, sem medo, sentia-me leve, isto antes de tomar a bebida.

Seu Francisquinho disse que "a fada da planta" estava ali entre nós. Quando me trouxeram o chá, foi num copo comum, como copo de café. A bebida já estava quase fria, era muito amarga, mas sem nenhum gosto especial. Todos me olhavam com um sorrisinho entre os lábios, eram uns 3 velhos, mas eu só conhecia seu Francisquinho e seu Pinto Neco, o "sogro" dele, que não era indígena, mas entendia muito sobre plantas medicinais e magia. Lembro-me de que não senti nada do que esperava, não fiquei sonolenta, nem entrei declaradamente em transe, nem vi imagens. Era tudo muito tranqüilo, uma conversa entre amigos numa noite qualquer. O pajé me disse que eu tinha que ir pra casa me deitar. Fui.

Estava hospedada na casa do agente da FUNAI em Colégio. Dormi imediatamente um sono bastante pesado. Quando acordei sentia-me "quase" normal, digo quase porque eu sou em geral uma pessoa ansiosa, que quer fazer logo as coisas, descobrir logo tudo, seguir adiante, etc. Não sou muito paciente. Pois me acordei algo letárgica, e lembro de ter ficado olhando o rio São Francisco por um bom tempo, parada na beira do rio, na rua que leva à aldeia, sem fazer absolutamente nada, algo inédito pra mim. Tive a sensação de que vi uma sereia saindo das águas e comecei a rir de mim mesma.Eu tinha visto a mesma sereia uma noite a beira do rio Xingu, depois de fumar maconha. "Essa sereia me persegue", pensei. Mas era uma sensação boa, de quem faz uma descoberta inédita. De repente, eu soube o quão importante era a jurema pra eles. Soube, com uma certeza absoluta, que sem a jurema eles iriam acabar perdendo tudo, se destrilhando de seu destino indígena. Eu ouvia uma cantiga dentro do meu coração, algo que não consegui jamais decifrar ou reproduzir, realmente como se fosse o canto de uma sereia. Soube inclusive que eu jamais poderia passar adiante o canto, mesmo que pudesse reproduzi-lo, pois era algo muito profundo, muito recôndito, algo perdido pelos ancestrais, pois era um presente que eu recebia só pra mim, pra mais ninguém.

Quando reencontrei seu Francisquinho, ele me disse que dali por diante eu teria sonhos premonitórios, que minha visão ia se abrir e que um dia eu acabaria entendendo tudo sobre eles, sobre os índios, mas que era gradual.

682 ENTREVISTA COM CLARIE NOVAES

Léo: Gostaria que você me desse uma explicação sobre a mimosa hostilis, suas origens... quais as nações que a utilizam como sacramento espiritual?

Clarice: Bem, a Mimosa hostilis foi recentemente rebatizada como Mimosa tenueflora, é um arbusto endêmico das caatingas nordestinas, geralmente usado como alimento pelo gado solto nos pastos, mas tem sido usada como "a planta mágica" pelos nativos, desde o Rio Grande do Norte até Sergipe.

Praticamente todas as nações indígenas do nordeste a conhecem e usam. Há um bonito documentário feito pela Mercia Batista e Rachel Rocha intitulado "A cienciazinha Turká", na qual se vê a coleta, preparo e ritual de uso da Jurema entre os Turká. Os Fulniô também a usam constantemente, além dos Kariri-Xocó e Xocó (estes últimos em Sergipe). Foi isolado um alcalóide nas raízes da Mimosa h. e chamado de nigerina, um análogo do N, Ndimetiltriptamina, que é um alucinógeno, mas que só faz efeito se ingerido pelas vias respiratórias e não pelo trato digestivo. Se for ingerido como bebida, esta tem que ser misturada com outro composto para poder ser potencializado o efeito alucinógeno. A Yatra Silveira acha que o outro elemento é a Peganum harmala, uma erva que contém alkaloides beta-carbolino:Harmina, harmalina, tetra-hidroharmina, nas suas sementes. É uma planta de origem na Pérsia e na Índia, tendo sido usada como o Soma sagrado das gentes nativas daquelas regiões.

A Mimosa hostilis ou tenueflora é conhecida popularmente como Jurema negra, Jurema braba, Jurema de espinhos e Jurema de caboclo. Há outra planta também conhecida como Jurema, que é a Mimosa verrucosa. Os índios dizem que esta é a Jurema branca, "que não endoida", ou seja, não dá visões, mas acalma e alimenta a alma dos penitentes. Por alguma razão, por mim desconhecida, os Kariri-Xocó não têm tomado a Jurema nos seus últimos encontros no Ouricuri sagrado deles. Esta informação me foi passada pelo próprio pajé atual deles, assim como por um dos participantes.

681 ENTREVISTA COM CLARICE NOVAES

Léo: Você poderia falar algo sobre a utilização no Catimbó, na Umbanda...as diferenças de preparo ?

Clarice: Não sei sobre o Catimbó, mas sei que na Umbanda não se usa a Mimosa hostilis, e nem a verrucosa, fazem um tipo de beberagem que inclui cascas de abacaxi fermentada, pois a Jurema da Umbanda é nada mais que um personagem de cabocla, ou seja, um ser espiritual pertencente aos nativos brasileiros, onde o imaginário popular apresenta a Jurema como representação dos povos nativos. Geralmente, tanto na Umbanda como no Candomblé de Caboclo, a Jurema é associada com uma festa na qual se come e se bebe a comida dos "caboclos", mas não se toma nenhum enteógeno, pois é a batida dos atabaques e pontos de chamada que induzem ao transe.

680 ENTREVISTA COM CLARICE NOVAES

Léo: O que é a Associação Nação de Jurema ?

Clarice: A Associação de Jurema era uma ONG dirigida por mim, com sede em Aracaju, que se dedicava a realizar projetos e eventos culturais sobre os grupos indígenas nordestinos, principalmente os Xocó de Sergipe, e os Kariri-Xocó de Alagoas, para fomentar um maior entendimento sobre a vida e a cultura desses grupos, promovendo ações em prol dos mesmos. Tinha esse nome porque consideramos que esses grupos são "nações nativas" de seguidores da jurema ancestral. Não bebíamos, nem preparávamos a jurema, a única vez em que o fizemos foi numa reunião muito privada, sem público, com alguns membros da diretoria.

Fizemos duas grandes festas, quando os Kariri-Xocó vieram e dançaram seus torés para um bom público, venderam artesanato, etc. Também promovemos a participação dos Kariri-Xocó numa feira de Natal, onde eles venderam artesanato e remédios botânicos que estavam sendo produzidos na "farmácia viva" deles, um projeto que eu iniciei, com apoio do Banco Mundial e da Associação Nação de Jurema, mas que não têve sucesso, devido a vários fatores que não podem ser discutidos em pouco espaço de tempo. Conseguimos alguns apoios institucionais para os índios, com envio de cestas básicas em dois fim de ano, quando se distribuem cestas para as famílias carentes. Organizamos uma mostra fotográfica, em Aracaju, por três meses, chamada "O fio da memória indígena em Sergipe e Alagoas", que foi inaugurada com uma mesa-redonda da qual participou, entre outras pessoas, o pajé Kariri-Xocó.

Quando eu me mudei para Maceió, tentei dar continuidade ao nosso trabalho, mas em vão, era o tipo de organização, ou de pessoas associadas, que não prescinda da minha presença, infelizmente.

Portanto, não está mais operante, embora ainda tenha existência legal.

679 ENTREVISTA COM CLARICE NOVAES

Léo: O que mais você acha mais importante que o público do xamanismo saiba sobre seu trabalho? Como você vê, como antropóloga, esse resgate do xamanismo nos tempos atuais, assim como o uso de enteógenos. Clarice: Sobre meu trabalho? Sou apenas mais uma peregrina aqui nesse planeta tentando desvendar alguns mistérios que nos levem à paz e ao amor eterno. A questão da Jurema, que sempre tanto me fascina, assim como a muita gente,eu passei para as mãos de jovens antropólogos e cineastas, com sede de conhecimento e que estão levando esse trabalho de pesquisa e resgate da cultura indígena adiante. São eles agora que respondem a minhas inquietações sobre os usos da jurema.

Vou te responder à segunda pergunta não só como antropóloga, mas primeiramente como ser humano mesmo. Isto porque a visão do antropólogo às vezes faz a gente bloquear certos conceitos e idéias ancestrais, já que agente tem que ser "objetivo" e "científico".

A humanidade passa por um momento crucial no qual todo conhecimento ancestral que pode nos levar à cura do planeta terra é de importância fundamental. Portanto, o trabalho xamânico continua sendo aquele que, juntamente com outras correntes do pensamento que nos levam á consciência universal, ao espírito criador, pode nos ajudar a elevar as consciências humanas de tal forma que possamos salvar a terra e os seres que nela vivem.

Há um movimento dentro das comunidades nativas do mundo inteiro para que se mantenha viva a tradição milenar de cura espiritual e física, que possa atender às necessidades de salvação não só das comunidades, mas das pessoas que estão fora dela. Os nativos de várias nações estão tendo um maior interesse em passar informações até então secretas para pessoas de fora de sua comunidade, para os buscadores que têm uma intenção pura de aprender responsavelmente, passando essas tradições adiante da forma mais respeitosa possível.

As plantas sagradas, os enteógenos, têm um papel fundamental nisso, mas é preciso atentar bem para que esses milagres não sejam desperdiçados em mentes que só buscam seu próprio prazer ou que fogem da realidade, em vez de buscá-la com todo o coração. Pois vivemos em um mundo de ilusões, e os enteógenos não são para se viver ilusões maiores, mas para escapar delas e assim descobrir a sabedoria contida no não-dualismo.

Quando Jesus de Nazaré dizia que "a verdade te libertará" ele repetia um moto xamânico de grande antiguidade. Se eu for olhar, tanto como simplesmente ser Humano ou como profissional da antropologia, os diversos grupos, comunidades e pessoas que trabalham com o xamanismo aí é outra história.

Em todo movimento, há aqueles que são verdadeiros, que são responsáveis, que são dignos de confiança e os que buscam somente seu próprio prazer, satisfazer seus egos, seus desejos de poder, ou de sei lá mais o quê

É desses que tenho medo, pois podem atrapalhar em muito essa jornada de renascimento xamânico tão importante. Chagdud Tulku Rinpoche, o lama tibetano que trouxe sua linhagem para o Brasil, escreve algo que vou citar pois é disso exatamente que estou tratando.

Ao escrever sobre a necessidade que praticantes do budismo têm de encontrar um mestre, ele nos adverte contra alguns: "Aqueles que se fingem de mestres, enganando a si próprios e aos outros, têm tanto para manter sua fachada quanto o comprimento da cauda de um porquinho da Índia. Depois de um curto período, já não são tão convincentes.

Antes de aceitarmos alguém como nosso professor ou professora, precisamos examinar com cuidado as qualidades e capacidades dele ou dela. Embora um falso professor possa não ter intenções negativas, aceitar uma pessoa assim é como beber veneno." ("Portões da prática budista", p.264) Tenho visto coisas assim muito esdrúxulas acontecendo no meio de acontecimentos importantes do xamanismo universal. Tem gente realmente bebendo veneno e que estão impossibilitadas de absorver o sagrado. Estas coisas me preocupam, pois as pessoas deixam de vivenciar a clareza dos ensinamentos de quem tem a "intenção pura" para cair nas tramas sem sentido daqueles que buscam por fama, reconhecimento, e outros motivos essencialmente egocêntricos

terça-feira, 25 de março de 2008

465 DINHEIRO NÃO SE COME

Em 1854, o presidente dos Estados Unidos fez ao Chefe Seattle a proposta de comprar grande parte de suas terras, para acabar com os litígios entre Homens Brancos e Peles Vermelha, oferecendo a concessão de uma outra “reserva” indígena. O texto da resposta do Chefe Seattle ao Grande Chefe Branco de Washington tornou-se atemporal. É um dos mais fortes e intensos pronunciamentos já feitos, no Planeta, em defesa da preservação do meio ambiente.

464 CARTA DO CHEFE SEATTLE

Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar nem do brilho das águas, como é possível comprá-los?.

Cada pedaço desta terra é sagrado para o meu povo. Cada brilhante mata de pinheiros, cada grão de areia nas praias, cada gota de orvalho nos escuros bosques, cada outeiro e até o zumbido de cada inseto é sagrado para a memória e para o passado do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças dos Homens Vermelhos. Os mortos do Homem Branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar nas estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do Homem Vermelho.

Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do cavalo e do homem - todos pertencem à mesma família. Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós.

O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil.

Esta terra é sagrada para nós. Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar as suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.

Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.

Sabemos que o Homem Branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devora a terra, deixando somente um deserto.

Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. Só de ver as suas cidades entristecem- se os olhos do Homem Vermelho. Talvez seja porque o Homem Vermelho é um selvagem e não compreende nada.

Não existe um lugar tranqüilo nas cidades do Homem Branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o grito solitário de uma ave nem as discussões noturnas das rãs nas margens de uma lagoa? Sou um Homem Vermelho e não compreendo. Nós preferimos o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, assim como o cheiro desse mesmo vento, purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado pelo aroma dos pinheiros.

O ar tem um valor inestimável para o Homem Vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem…

O Homem Branco não parece estar consciente do ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao Homem Branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que mantém. O vento que deu a nosso avô seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o Homem Branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores dos prados. Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o Homem Branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo qualquer outro modo de vida. Vi milhares de búfalos apodrecendo nas planícies, abandonados pelo Homem Branco que os alvejou da janela de um trem ao passar.

Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecer vivos. Que seria do homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão espiritual. Pois o que suceder com os animais, breve sucederá ao homem. Tudo está ligado.

Vocês devem ensinar às suas crianças o que ensinamos às nossas: que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.

Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer à rede da vida, ele o faz a si próprio.Nem mesmo o Homem Branco, cujo Deus passeia e fala com ele de amigo para amigo, fica isento do destino comum.

Por fim, talvez sejamos irmãos. Veremos. De uma coisa estamos certos - e o Homem Branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que o possuem, como desejam possuir nossa terra; mas não é possível. Ele é o Deus do homem e sua compaixão é igual para o Homem Vermelho e para o Homem Branco. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as outras tribos. Contaminem suas camas e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos. Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta Terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a Terra e sobre o Homem Vermelho.

Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnadas do cheiro de muitos homens e a visão dos morros obstruída por fios que falam.

Onde está o arvoredo? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência.

Portanto consideraremos sua oferta de comprar a terra. Se concordarmos será para assegurarmos a reserva que vocês prometeram. Lá, talvez, poderemos sobreviver nossos derradeiros dias como desejamos. Quando o último homem vermelho desaparecer desta terra, e sua memória for apenas a sombra de uma nuvem se movendo sobre a pradaria, estas praias e florestas ainda estarão mantendo os espíritos de meu povo.

Pois meu povo ama esta terra como o recém-nascido ama a batida do coração de sua mãe. Portanto se lhes vendermos nossa terra, procurem dar amor a ela assim como nos a amamos. “

463 DINHEIRO NÃO SE COME

Quando a última árvore for cortada, quando o último rio for poluído, quando o último peixe for pescado, Aí sim eles verão que dinheiro não se come.
chefe Seattle

462 MANIFESTO ECOLÓGICO - CARTA DO CHEFE SEATTLE

Carta do Chefe Seattle
Cacique Seattle - da tribo Duwamish, 1855

O Grande Chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar nossa terra. O Grande Chefe assegurou-nos também de sua amizade e sua benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Porém, vamos pensar em tua oferta, pois sabemos que se não o fizermos o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O Grande Chefe em Washington pode confiar no que o chefe Seattle diz, com a mesma certeza com que os nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas. Elas não empalidecem. Como podes comprar ou vender o céu - o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água. Como podes comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre o nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada uma folha reluzente, todas as praias arenosas, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual a outro. Porque ele é um estranho que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de exauri-la, ele vai embora. Deixa para trás o túmulo do seu pai, sem remorsos de consciência. Rouba a terra dos seus filhos. Nada respeita. Esquece as sepulturas dos antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrecerá a terra e vai deixar atrás de si os desertos. A vista de tuas cidades é um tormento para os olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende. Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem um lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é para mim uma afronta contra os ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um indígena prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar - animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro. Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição. O homem branco deve tratar os animais como se fossem irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser certo de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco, que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso do que um bisão que nós, indígenas, matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode afetar os homens. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto fere a terra fere também os filhos da terra. Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, e envenenam o corpo com alimentos doces e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos. Mas algumas horas, até mesmo uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que tem vagueado em pequenos bandos nos bosques, sobrará para chorar sobre os túmulos. Um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso. De uma coisa sabemos que o homem branco talvez venha um dia a descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julgas, talvez, que O podes possuir da mesma maneira como desejas possuir a nossa terra. Mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira. E quer o bem igualmente ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. E causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo seu Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua poluindo a tua própria cama e hás de morrer uma noite, sufocado nos teus próprios dejetos! Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos silvestres, quando as matas misteriosas federem à gente - onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinhas da torre, à caça do fim da vida e o começo da luta para sobreviver... Talvez compreenderíamos se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferece às suas mentes para que possam formar os desejos para o dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos, temos de escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos, é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças como era a terra quando dela tomaste posse. E com toda a tua força, o teu poder, e todo o teu coração conserva-a para teus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.

.......... Carta escrita pelo cacique Seattle, da tribo Duwamish, do Estado de Washington, ao presidente Franklin Pierce, dos Estados Unidos, em 1855, depois de o governo norte-americano ter dado a entender que desejava adquirir o território da tribo. Existem várias versões, pois o suposto texto original foi modificado para a cultura branca .........

Povos Indigenas do Brasil

Quando a última árvore for cortada, quando o último rio for poluído, quando o último peixe for pescado, Aí sim eles verão que dinheiro não se come. Chefe Sioux

domingo, 23 de dezembro de 2007

368 INDIGENISMO

Indigenismo

En primer lugar, la que estima el paso de. España como algo advenedizo y extraño que se yuxtapone a la población autóctona y que es preciso sacudir y expulsar con objeto de que aquellas espléndidas civilizaciones vernáculas recobren su vigor y su grandeza primitivos. La América española es una creación artificial, lo que cuenta es Indoamérica, e indigenismo se llama la doctrina redentora que es necesario predicar frente a la opresión de la conquista. Se utilizan los tópicos conocidos, se montan leyendas con hecatombes de indios pacíficos e inocentes y de tal modo se exagera la nota de brutalidad de los españoles, que Clemente Orozco, uno de los mas grandes pintores mejicanos, no ha podido por menos, criticando el indigenismo, que escribir estas paginas humorísticas: "La Conquista no debió haber sido como fue. En lugar de capitanes crueles y ambiciosos, España debió mandar una delegación numerosa de etnólogos, antropólogos, arqueólogos, ingenieros civiles, cirujanos, dentistas, veterinarios, médicos, maestros rurales, agrónomos, enfermeras de la Cruz Roja, filósofos, filólogos, biólogos, críticos de arte, pintores murales y eruditos en Historia. A1 llegar a Veracruz, desembarcar de las carabelas carros alegóricos enflorados y en uno de ellos Hernán Cortes y sus capitanes, llevando sendas canastillas de azucenas y gran cantidad de flores, confetis y serpentinas para el camino de Tlaxcala. Y después de rendir pleito homenaje al poderoso Moctezuma, establecer laboratorios de bacteriología, neurología, rayos X, luz ultravioleta, un departamento de asistencia pública, universidades, kindergartens, bibliotecas y bancos refaccionarios... Poner a Alvarado, a Ordaz, a Sandoval y demás varones fuertes de gendarmes, a cuidar las ruinas... Aprender ellos mismos los 782 idiomas diferentes que se hablaban. Respetar la religión indígena... Impulsar los sacrificios humanos, con departamento de engorde y maquinaria moderna para refrigerar y enlatar y sugerirle, muy respetuosamente, al gran Moctezuma que estableciera la democracia en el pueblo, pero conservando los privilegios de la aristocracia." Pero es que la construcción ideológica de Indoamérica es radicalmente falsa en su base y deletérea edemas, si de la misma se deducen sus naturales consecuencias. Es falsa en su base porque, sin perjuicio de los abusos inherentes a toda empresa humana, la medula del quehacer español en América no fue otra que la expansión del Evangelio. La Conquista no fue encomendada a empresas comerciales, provistas de concesiones y privilegios, que asegurasen, en todo caso, rentas ajustadas a la Corona, ni fue tampoco el resultado de una huida de grupos disidentes que buscaban cobijo a su preciosa libertad. La empresa española fue una empresa del pueblo y del Estado, fieles, absolutamente fieles, a la convicción ortodoxa que pliega y subordina los intereses temporales al mas alto servicio de Dios y de las almas. Por esto -y vuelvo a repetir que sin ocultar la existencia de pecados y pecadores-, cuando Alonso de Ojeda desembarca en las Antillas en 1509, no les dice a los indios que los descubridores pertenecen a una raza superior y distinta, sino que, animándoles, les enseña que "Dios Nuestro Señor, que es único y eterno, creo el cielo y la tierra y un hombre y una mujer de los cuales vosotros y yo, y todos los hombres que han sido y serán en el mundo, descendemos". "Nuestros amigos los indios", repetirán los Reyes de España, y para ellos, para que fueran respetados y amados como iguales, se dicta ese monumento de las Leyes. de Indias, que ahí está para gloria de los hispanos y vergüenza de los fariseos que han querido ocultar sus lacras vergonzantes lanzando manotadas de cieno sobre la estampa limpia de la verdad. Pero la construcción ideológica de Indoamérica no solo es falsa en su base, sino que es absurda en sus resultados, sobre todo si entre ellos se aspira a buscar estímulos y resortes a la unidad de nuestros pueblos. En primer lugar, países como Argentina, Uruguay y Costa Rica, donde apenas si existen vestigios de la población autóctona, quedarían automáticamente separados del movimiento;. Por otro lado, habría que detener el mestizaje, que los auténticos indigenistas han de considerar como producto híbrido, como una yerba malsana que es necesario expulsar o destruir con tanto o con mas ahínco que aquellos cuyo color y contextura siguen representando la conquista. Finalmente, conseguidas las metas deseadas y repuesta la situación en el punto de partida, en el instante mismo en que las culturas aborígenes quedaron paralizadas, nos encontraríamos con el espectáculo desesperante de miles de tribus, ligadas tan solo por el vinculo lugareño, separadas por abismos de incomprensión y de idioma, sin conciencia histórica nacional, entregadas a practicas y costumbres primitivas y, en muchos casos, despóticas y sanguinarias. La construcción ideológica de Indoamérica es inadmisible. Si hay algo en el indigenismo que merece beligerancia y que ha de recogerse con cariño y con amor es aquello que tiene de inquietud por mejorar el nivel de vida de los indios, en demasiadas ocasiones bajo, desolador e infrahumano; lo que tiene de afán por ir agregando a la cultura a las tribus en estado salvaje; lo que tiene de ambición por ofrecerles la posibilidad de ser, como ha escrito Lain, lo que fue en su época y con respecto a los hombres de su raza, el Inca Garcilaso. Pero esto no es otra cosa que Cristianismo a secas, continuación de esa sinfonía inacabada que hemos llamado la Hispanidad. La que prolongan, ensanchan y continúan los misioneros en las auras avanzadas de los infieles; la que hace de lo español, como escribe el chileno Jaime Eyzaguirre, no un elemento más en el conglomerado étnico, sino el factor decisivo y aglutinante, con fuerza y genio capaz de atarlos a todos, de armonizar las lenguas dispares de Méjico y hacer de Chile, no ya el nombre de un valle, sino la denominación de una vasta y plena unidad territorial. Si alguna vez hubo desprecio hacia los indios, no fue realmente durante la Colonia, sino en los años inmediatos y subsiguientes a la emancipación. Jamás fueron escuchados de labios peninsulares sentencias tan auras como esta de Sarmiento: "Los araucanos son indios asquerosos a quienes habríamos hecho colgar y mandaríamos colgar ahora"; y jamas, durante la época colonial, se produjo la situación de Guatemala en 1870, cuando el Presidente Barrios anuló e incluso ordenó destruir los títulos de propiedad otorgados a los indios quiché por la Corona de España, aboliendo una situación legal avalada por siglos de existencia y deshaciendo, con daño del país, un orden económico que había traído la paz y la ventura a los indígenas. Lo que hay de auténtico y de valioso en el indigenismo es patrimonio de la Hispanidad, en cuanto que la Hispanidad tiene un núcleo medular cristiano. Ramiro de Maeztu, al enfrentarse con el problema "nativista", como se llama en Brasil la doctrina que mantiene la postura indoamericana, ha escrito de modo admirable: "Cuando el azteca culto compare un día la gran promesa que significa la catedral de Méjico, con la miseria, la ignorancia y las supersticiones de muchos de sus hermanos, es muy posible que se le ocurra renegar de la promesa y declararse enemigo de la Iglesia católica. Pero también es muy posible que vislumbre que la obra de la Hispanidad no está sino iniciada, que consiste precisamente en sacar a los indios y a todos los pueblos de la miseria y de la crueldad, de la ignorancia y de las supersticiones. Y acaso entonces se le entre por el alma un relámpago de luz que le haga ver que su destino personal consiste en continuar la obra en la medida de sus fuerzas. A1 reflejo de esa chispa de luz, habrá surgido un caballero de la Hispanidad, que también podrá ser un duque castellano, o un estudiante de Salamanca, o un cura de nuestras aldeas, o un hacendado brasileño, un estanciero argentino, un negro de Cuba, un indio de Méjico o Perú, un tagalo de Luzón o un mestizo de cualquier país de América, así como una monja o una mujer intrépida, porque si un ideal produce caballeros, también han de nacerle damas que le sirvan.". *

Texto de Blas Piñar, In: Mistica y Politica de Hispanidad

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quarta-feira, 5 de setembro de 2007

147 AMMA E O FULNIÔ

Durante a passagem da mística indiana Amma pelo Rio de Janeiro, um episódio relatado pelo jornalista Julio Moura impressiona pela estranha sincronicidade e pelo manifesto espontâneo e expressivo de um índio brasileiro. “Três índios Fulniô, de Pernambuco, subiram ao palco do Centro de Convenções do Hotel Intercontinental, durante a visita de Amma ao Rio. Em plena cerimônia do Darshan (o abraço da Amma), iniciaram uma dança típica de sua etnia, sob o olhar surpreso de todos, já que a improvisada performance não estava programada. Um deles dirigiu-se ao microfone e falou da dor que representava para eles deixar sua gente para fugir da miséria. Até que um segundo índio interveio e bradou de maneira contundente: "Eu não sei quem é essa mulher... não entendo a língua que ela fala... não sei de que país vem essa mulher"... Fez-se silêncio no auditório ainda cheio, já na alta madrugada. "Só sei dizer que esta mulher tem o coração mais puro que já vi em toda minha vida". Algumas pessoas começaram a aplaudir. "Ela entende de energia da mesma maneira que nós, índios, entendemos. De uma maneira que vocês não entendem. Aprendam com esta mulher". O trio deixou o palco ovacionado, diante do sorriso de Amma.”