Artigo: Quatro "erres" contra o consumismo
Erradicar a fome é um imperativo humanístico, ético, social e ambiental. Uma pré-condição mais imediata e possível de ser posta logo em prática é um novo padrão de consumo. Por Leonardo Boff*
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Artigo: Quatro "erres" contra o consumismo
Erradicar a fome é um imperativo humanístico, ético, social e ambiental. Uma pré-condição mais imediata e possível de ser posta logo em prática é um novo padrão de consumo. Por Leonardo Boff*
Não causa espanto o fato de o Presidente Bush conclamar a população para consumir mais e mais e assim salvar a economia em crise, lógico, à custa da sustentabilidade do planeta e de seus ecossistemas. Contra isso, cabe recordar as palavras de Robert Kennedy, em 18 de março de 1968: ”Não encontraremos um ideal para a nação nem uma satisfação pessoal na mera acumulação e no mero consumo de bens materiais. O PIB não contempla a beleza de nossa poesia, nem a solidez dos valores familiares, não mede nossa argúcia, nem a nossa coragem, nem a nossa compaixão, nem a nossa devoção à pátria. Mede tudo menos aquilo que torna a vida verdadeiramente digna de ser vivida”. Três meses depois foi assassinado.
Para enfrentar o consumismo urge sermos conscientemente anti-cultura vigente. Há que se incorporar na vida cotidiana os quatro “erres” principais: reduzir os objetos de consumo, reutilizar os que já temos usado, reciclar os produtos dando-lhes outro fim e finalmente rejeitar o que é oferecido pelo marketing com fúria ou sutilmente para ser consumido.
Sem este espírito de rebeldia consequente contra todo tipo de manipulação do desejo e com a vontade de seguir outros caminhos ditados pela moderação, pela justa medida e pelo consumo responsável e solidário, corremos o risco de cairmos nas insídias do consumismo, aumentando o número de famintos e empobrecendo o planeta já devastado.
*Leonardo Boff é teólogo e autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos. Leia outros artigos do autor em http://www.leonardoboff.com.br.
http://www.ecoagencia.com.br/index.php?option=content&task=view&id=3224&Itemid=62
UMA ENTREVISTA COM HOWARD S. BECKER*
* Esta entrevista foi transcrita e traduzida por Lia Carneiro da Cunha, revista por Gilberto Velho e editada por Dora Rocha Flasksman.
Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n.5, 1990, p.114-136.
Howard S. Becker, professor do Departamento de Sociologia da Northwestern University, em Evanston, Illinois, é um dos mais influentes cientistas sociais contemporâneos. Sem dúvida, é o maior expoente vivo da Escola de Chicago, fenômeno científico e cultural que analisa nesta entrevista. Sua área de atuação é abrangente e diversificada, incluindo trabalhos sobre desvio, ocupações, educação e sociologia da arte. Suas reflexões sobre metodologia e trabalho de campo são cada vez mais difundidas nas ciências humanas como um todo. Sua experiência como pianista de jazz profissional durante a juventude marcou-o de forma indelével, fazendo com que, nos seus próprios termos, estabelecesse uma relação muito singular com a vida acadêmica. Hoje, boa parte de sua obra está traduzida para o francês, o espanhol, o italiano e o alemão. Em 1977 foi publicada no Brasil sua coletânea Uma teoria da ação coletiva, há muito esgotada. Atualmente, pelo menos mais dois livros seus estão sendo preparados para lançamento no nosso país. Esta entrevista foi realizada em abril de 1990, por ocasião de sua terceira visita ao Brasil, para um curso no Programa de Pós-Graduação
G.V. – Como foi o início da sua vida? Sua família, seus estudos, a escolha da carreira?
G.V. -Havia muitos judeus na Universidade de Chicago naquela época?
G.V. - Você não teve problemas com seus pais?
G.V. - Essa democratização das universidades americanas trouxe grandes mudanças?
G.V. - Você obteve seu mestrado com 21 anos, e o PhD com 23, o que hoje é excepcional. Mesmo na época era considerado excepcional?
G.V. - Só para lembrar, Thomas escreveu, junto com Florian Znaniecki, um famoso livro sobre os camponeses poloneses.
A.A. - A metodologia utilizada pelos primeiros pesquisadores de Chicago foi amplamente difundida, não só no resto dos Estados Unidos como na Europa. Como ocorreu essa difusão?
G.V. - Você acha que nesses primeiros tempos não havia um projeto consciente de orientação metodológica?
G.V. - Você mencionou Small, Thomas...
M.I. -Pesquisa empírica, métodos estatíticos... O que caracterizou afinal a chamada Escola de Chicago?
A.A. - O que você teria a dizer sobre Parsons?
A.A. - Pensei que ele tivesse passado por Chicago.
A.A. - Você disse que essa geração saiu de Chicago para implantar a sociologia nos Estados Unidos. Como foi isso?
G.V. -Houve portanto em Chicago um processo claro de inbreeding?
G.V. - Uma coisa interessante é que parece que na sua época vocês não tinham
G.V. - O que você pode nos contar sobre a New School of Social Research?
G.V. – Na fase inicial do Departamento de Sociologia de Chicago havia uma geração de pessoas que em alguns casos haviam estudado na Europa. Mas a partir de um certo momento, o que se observa são americanos ensinando americanos, com um contato com a Europa relativamente pequeno. Foi isso o que realmente aconteceu?
M.I. - Essa divisão moral do trabalho passava também pelo sexo? Ou seja, haveria trabalho para homem e trabalho para mulher?
G.V. - Alguem lia Charles Booth?
G.V. - Uma crítica que se faz à sociologia americana é que ela não tem uma comunicação estreita com outros centros. Em sua opinião, isso afetou a sociologia americana em algum nível?
G.V. - Estou pensando na Escola Sociológica Francesa, com Durkheim, Marcel Mauss... Não havia contato da sociologia americana com esses autores?
G.V. - Isso é importante. A geração dos seus professores conhecia outras línguas.
G.V. - Você considera que teria havido nos Estados Unidos uma reação à teoria por causa de Parsons?
G.V. Em Chicago também?
G.V. - Interessante, porque os primeiros livros dele são de 1938-1939.
G.V. - Como se deu essa associação entre Merton e Lazarsfeld?
G.V. – Qual foi o papel de Lazarsfeld nessa pesquisa?
G.V. - Quem mais você mencionaria em Columbia?
G.V. - É interessante destacar que depois da guerra a antropologia se tornou muito importante
G.V. - Na época da sua formação e no período subseqüente Marx tinha alguma
G.V. - A influência dessas correntes nas artes foi grande. Mas também foi forte nas
G.V. - Ainda assim, houve uma influência intelectual de Marx nos meios acadêmicos?
G.V. -A Universidade de Chicago era predominantemente pró-Partido Democrata?
G.V. - Que tipo de envolvimento essas pessoas tinham com o New Deal de Roosevelt?
G.V. - Esse ponto é extremamente interessante. O marxismo não leve um papel importante no ambiente intelectual americano devido à repressão. Mas em muitas outras partes do mundo também havia repressão e ele foi importante, até mesmo por causa da repressão. Não haveria outras razões para o fato de o marxismo não ter tido peso na cultura intelectual americana?
G.V. – Marx foi muito importante, por exemplo, para a New School of Social Research, onde chegou através da Escola de Frankfurt e de outros centros europeus.
G.V. – Você falou em "democratas" - do Partido Democrata, pessoas mais ou menos de "esquerda" etc. São conceitos meio imprecisos...
G.V. - Em Oxford, Cambridge, também havia muitos marxistas não declarados.
G.V. - Mas continuo interessado na sua geração. Marx afinal foi ou não foi importante para ela?
G.V. -Mas eu faço uma distinção entre ação política e experiência intelectual. Por exemplo: você praticamente não encontra Marx nas bibliografias.
G.V. - O que quero saber, em resumo, é quanto Marx foi relevante ou irrelevante para a sociologia americana.
M.I. - Você acha que ocorreu uma supervalorização de Marx em outras partes do
M.I. - De qualquer forma, você não acha que Marx trouxe para a cultura uma revolução copernicana, assim como Freud?
G.V. - Em Chicago vocês tinham alguma relação com universidades inglesas? Você mencionou alemães e franceses.
G.V. - Radcliffe-Brown esteve ele próprio em Chicago.
A.A. - Qual era a relação entre a Escola de Chicago e a École des Annales?
G.V. - Os estudantes de sociologia americanos ainda lêem essas coisas hoje em dia?
G.V. - Simmel não é considerado um teórico?
G.V. - Vamos voltar agora para a sua carreira pessoal. Você estudou com Lloyd Warner e conheceu a antropologia social britânica. Qual foi a importância da antropologia social em seu trabalho?
G.V. - Mas antes da Noríhwestern você não ensinou em Stanford?
G.V. - Como você compara os departamentos de sociologia da Universidade de Chicago e da Northwestern?
G.V. - Na verdade, era uma sociologia da literatura.
G.V. - Com Outsiders, você se tornou conhecido como o grande teórico da área do desvio. Mas além disso, você também é conhecido como um teórico na área do interacionismo
G.V. - Você está fazendo teoria....
A.A. - Como você veio parar no Brasil?