quinta-feira, 3 de junho de 2010

1415 O FUTURO DE UMA ILUSÃO


Sobre outro ponto concordo irrestritamente com você. Sem dúvida é insensato
começar a tentar eliminar a religião pela força, e de um só golpe. Acima de tudo,
porque isso seria irrealizável. O crente não permitirá que sua crença lhe seja
arrancada, quer por argumentos, quer por proibições. E mesmo que isso acontecesse
com alguns, seria crueldade. Um homem que passou dezenas de anos tomando pílulas
soporíferas, evidentemente fica incapaz de dormir se lhe tiram sua pílula. Que o efeito
das consolações religiosas pode ser assemelhado ao de um narcótico é fato bem
ilustrado pelo que está acontecendo nos Estados Unidos. Lá estão tentando agora –
claro que sob a influência de um domínio feminista – privar o povo de todos os
estimulantes, intoxicantes e outras substâncias produtoras de prazer, e, em vez delas,
a título de compensação, empanturram-no de devoção. Trata-se de outro experimento
sobre cujo resultado não precisamos sentir-nos curiosos ,ver em [[1] e [2]].
Assim, tenho de contradizê-lo quando prossegue argumentando que os homens são
completamente incapazes de passar sem a consolação da ilusão religiosa, que, sem ela,
não poderiam suportar as dificuldades da vida e as crueldades da realidade. Isso é
certamente verdade quanto aos homens em que se instilou o doce (ou agridoce) veneno
desde a infância. Mas, e os outros, os que foram mais sensatamente criados? Os que
não padecem da neurose talvez não precisem de intoxicante para amortecê-la.
Encontrar-se-ão, é verdade, numa situação difícil. Terão de admitir para si mesmos
toda a extensão de seu desamparo e insignificância na maquinaria do universo; não
podem mais ser o centro da criação, o objeto de terno cuidado por parte de uma
Providência beneficente. Estarão na mesma posição de uma criança que abandonou a
casa paterna, onde se achava tão bem instalada e tão confortável. Mas não há dúvida
de que o infantilismo está destinado a ser superado. Os homens não podem
permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a “vida hostil”. Podemos
chamar isso de “educação para a realidade”. Precisarei confessar-lhe que o único
propósito de meu livro é indicar a necessidade desse passo à frente?
Você tem medo, provavelmente, de que não resistam a tão duro teste?
Bem, pelo menos tenhamos esperança de que resistam. Já é alguma coisa, de qualquer
modo, alguém saber que está entregue a seus próprios recursos: aprende a fazer um
emprego correto deles. E os homens não estão completamente sem assistência. Seu
conhecimento científico lhes ensinou muito, desde os dias do Dilúvio, e aumentará seu
poder ainda mais. E quanto às grandes necessidades do Destino, contra as quais não
há remédio, aprenderão a suportá-las com resignação. De que lhes vale a miragem de
amplos campos na Lua, cujas colheitas ainda ninguém viu? Como honestos
arrendatários nesta Terra, aprenderão a cultivar seu terreno de tal modo que ele os
sustente. Afastando suas expectativas em relação a um outro mundo e concentrando
todas as energias liberadas em sua vida na Terra, provavelmente conseguirão
alcançar um estado de coisas em que a vida se tornará tolerável para todos e a
civilização não mais será opressiva para ninguém. Então, com um de nossos
companheiros de descrença, poderão dizer sem pesar: Den Himmel überlassen
wirDen Engeln und den Spatzen.
X
“Isso soa esplêndido! Uma raça de homens que renunciou a todas as ilusões e assim se
tornou capaz de fazer tolerável sua existência na Terra! Entretanto, não posso
partilhar de suas expectativas. E isso não por ser o obstinado reacionário por quem
talvez me tome.

Nenhum comentário: